Informativo
Apoio a mulheres que querem parar de fumar deve considerar questões sociais.
“É uma carência, é uma luta muito solitária que a mulher tem. E o cigarro é o apoio”, disse uma entrevistada que tinha câncer e não tinha com quem dividir o medo da morte. “O cigarro é pra ficar bem mais forte”, disse outra entrevistada ao expressar a dor pela morte violenta do filho. Estes depoimentos fazem parte de um estudo feito pelas pesquisadoras Márcia Terezinha Trotta Borges e Regina Helena Simões-Barbosa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Publicado recentemente na revista Cadernos de Saúde Pública, periódico da Fiocruz, o trabalho revela que, entre as mulheres, cada vez mais exigidas pela família e pelo trabalho, o cigarro desempenha um papel de apoio no enfrentamento de problemas, mas cobra um preço alto pelo amparo proporcionado. O artigo destaca que, além das questões médicas, o tabagismo envolve também aspectos sócio-culturais, políticos e subjetivos, assim como a dimensão de gênero. Por isso, as pesquisadoras ressaltam que, nas estratégias de controle e prevenção do tabagismo feminino, é necessário levar todos esses fatores em consideração.
Em outras palavras, o artigo de Márcia e Regina mostra que, para retirar o cigarro da vida das mulheres, não basta convencê-las dos males à saúde: é preciso compreender o papel atribuído ao cigarro e substituí-lo por suporte não só médico, mas também social. As duas pesquisadoras entrevistaram 14 frequentadoras de um programa, em um hospital público do Rio, voltado a pessoas que querem parar de fumar. Nas conversas, “buscou-se captar as dimensões das experiências de vida, sentimentos, crenças, valores e atitudes das entrevistadas, além das singularidades em meio às diversidades culturais e sociais”, contam as autoras no artigo. Procurando compreender os significados do fumar feminino, foram abordados diversos temas, como a trajetória sócio-familiar e de gênero, assim como as vivências relacionadas ao cigarro. Também foi feita uma avaliação do programa de saúde oferecido pela instituição.
A maioria das entrevistadas encontrava-se na faixa etária de 41 a 60 anos e iniciou o fumo antes dos 13 anos, acendendo os primeiros cigarros em casa, para os familiares. Estas mulheres procuraram o programa do hospital por motivo de saúde e encontravam-se em abstinência entre dois e seis meses. Os depoimentos revelaram traços comuns entre elas: muitas tiveram uma infância pobre, marcada pelo abandono da escola e ingresso precoce no mundo do trabalho, além da ausência da figura paterna. Também não foram raros os relatos de agressões sofridas. “As situações de pobreza, que freqüentemente geram desagregação familiar e violência, marcaram profundamente essas mulheres”, dizem as autoras.
Ao falarem sobre os homens, as entrevistadas lhes atribuíram várias características negativas, ressaltando o fato de serem egoístas e pouco companheiros na hora de dividir as tarefas da casa e os cuidados com os filhos. Por outro lado, as mulheres foram quase sempre identificadas com atributos positivos, associados à figura da mãe e da guerreira. “Portanto, concomitante à crítica sobre a exploração do trabalho feminino, subsiste uma representação do feminino ideologicamente ‘naturalizada’ na maternidade, explicando e justificando a super-exploração do trabalho feminino, produtivo e reprodutivo. Essa ideologia, a nosso ver, obscurece a compreensão das interrelações entre a condição de gênero e o sistema capitalista, que explora a maioria da população trabalhadora, homens e mulheres”, destacam Márcia e Regina.
Sobrecarga de trabalho, cobranças e conflitos sociais, momentos de estresse, desgaste, sofrimento, ansiedade, raiva, impotência, solidão e rejeição: é nessas circunstâncias que as entrevistadas recorriam ao cigarro – “um suporte barato, de fácil acesso e que proporcionava alívio, mesmo que momentâneo, para tantos sentimentos dolorosos”, conforme descrevem as autoras. A partir das entrevistas, as pesquisadoras identificaram duas categorias do tabagismo feminino: o cigarro como companheiro e como fonte de prazer.
“O cigarro ‘companheiro’ é associado ao enfrentamento de situações relacionadas às contradições entre mundo público e familiar, ao alívio de sentimentos ‘negativos’ e, por fim, como compensação da solidão”, explicam Márcia e Regina. “O cigarro ‘fonte de prazer’ emerge associado a um quase ritual, realizado nos raros momentos em que se descansa dos incontáveis e incessantes ‘deveres’ e demandas da casa, do trabalho, dos filhos e de outros familiares, criando momentos íntimos de reflexão e paz, a sós consigo mesma, em contextos de vida com poucas oportunidades de privacidade, relaxamento e intimidade”, completam.
Essas dificuldades cotidianas, que levam as mulheres a se refugiarem no cigarro, devem ser levadas em conta na elaboração de programas de controle e prevenção do fumo específicos para este segmento. “Reafirmamos aqui a necessidade de considerarmos, na pesquisa e na assistência à saúde das mulheres, particularmente no tabagismo feminino, os determinantes sociais, culturais e políticos dos processos saúde/doença, neles incluídos a dimensão de gênero”, concluem as pesquisadoras.
Texto: Fernanda Marques
Fonte: Agência Fiocruz - Publicado em: 29/01/2009
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Drogas que substituem a nicotina, uma viagem perigosa
EUA - A dura estréia de um mimetizador da nicotina diminui a esperança de seu uso em larga escala
Como a gigante farmacêutica Pfizer comentou em maio, chegar primeiro tem suas recompensas, mas traz o risco da aventura em territórios não explorados. Na primavera passada a Administração da Aviação Federal dos EUA proibiu pilotos e controladores de tráfico aéreo de tomarem vareniclina, o medicamento para cessação de fumar mais popular da companhia, vendido nos EUA como Chantix. As 6,5 milhões de prescrições feitas desde 2006 resultaram em relatos amplamente divulgados sobre convulsões, psicose e depressão suicida. Em maio, o Instituto Prática de Medicação Segura (Institute for Safe Medication Practices), entidade sem fins lucrativos, documentou 988 desses “eventos adversos”, levando ao imediato banimento do seu uso na aviação.
A FDA (Food and Drug Administration dos EUA) agora adicionou uma forte advertência nas orientações do medicamento e a Pfizer está revisando as evidências que podem explicar os incidentes, que embora raros, são graves.
A Vareniclina não é apenas um novo instrumento na cessação do tabagismo. É o primeiro de uma inteira classe de medicamentos especificamente elaborados tendo como alvo a poderosa família de receptores na superfície das células cerebrais, formada por receptores nicotínicos de acetilcolina, que podem mediar a dor, o humor, a memória, a atenção e outras funções cognitivas.
Os laboratórios Abbott, Targacept e AstraZeneca desenvolveram drogas que, em ensaios clínicos, atuam em receptores nicotínicos para distúrbios de memória, de défict de atenção - hiperatividade e dor. O Instituto Nacional de Abuso de Drogas está testando a própria vareniclina para o tratamento de dependência de cocaína e álcool. Estudos pré-clínicos estão analisando outros novos compostos que atuam sobre receptores nicotínicos para a doença de Parkinson, doença de Alzheimer, depressão, colite ulcerativa e inflamação, assim como atestando a ampla influência dessa família de receptores.
Na verdade, os efeitos dos receptores nicotínicos são tão amplos, que alguns mecanismos envolvidos não são completamente entendidos ainda. “É uma história que ainda está em evolução, e é muito complicada, assim como é lidar com uma droga como a vareniclina. Eu não estou surpresa que haja efeitos colaterais” diz Lorna Role, que estuda a biologia dos receptores nas Universidades de Columbia e de Stony Brook.
Esse tipo de receptor de acetilcolina, que também responde por nicotina, atua como “um controle de volume” de outros neurotransmissores, de acordo com Role. “Um pouco de nicotina aumenta a liberação do transmissor” ela explica. Foi demonstrado que ele aumenta a liberação de dopamina, glutamato, GABA, todos os principais neurotransmissores.
A ativação de um subtipo de receptor nicotínico conhecido como alfa4beta2 provoca a liberação de dopamina em uma parte do cérebro envolvida no reforço da recompensa, por exemplo, e aquele receptor é o alvo principal da vareniclina. Essa droga atua como um “agonista parcial” o que significa que a mesma se liga ao receptor, produzindo um moderado estímulo dirigido a adiar a remoção da nicotina.
Ao fazer isso, ela impede a nicotina de alcançar o receptor, evitando que o fumante obtenha a nicotina a partir de um cigarro.
Em estudos celulares, a vareniclina também atua como um potente agonista completo de outro subtipo de receptor denominado de alfa 7 que é associado com alguns efeitos cognitivos positivos da nicotina, tais como o aumento da capacidade de focar.
Fonte: Scientific American Magazine - 29 de agosto de 2008
Tradução: INCA/Divisão de Controle do Tabagismo
EUA - A dura estréia de um mimetizador da nicotina diminui a esperança de seu uso em larga escala
Como a gigante farmacêutica Pfizer comentou em maio, chegar primeiro tem suas recompensas, mas traz o risco da aventura em territórios não explorados. Na primavera passada a Administração da Aviação Federal dos EUA proibiu pilotos e controladores de tráfico aéreo de tomarem vareniclina, o medicamento para cessação de fumar mais popular da companhia, vendido nos EUA como Chantix. As 6,5 milhões de prescrições feitas desde 2006 resultaram em relatos amplamente divulgados sobre convulsões, psicose e depressão suicida. Em maio, o Instituto Prática de Medicação Segura (Institute for Safe Medication Practices), entidade sem fins lucrativos, documentou 988 desses “eventos adversos”, levando ao imediato banimento do seu uso na aviação.
A FDA (Food and Drug Administration dos EUA) agora adicionou uma forte advertência nas orientações do medicamento e a Pfizer está revisando as evidências que podem explicar os incidentes, que embora raros, são graves.
A Vareniclina não é apenas um novo instrumento na cessação do tabagismo. É o primeiro de uma inteira classe de medicamentos especificamente elaborados tendo como alvo a poderosa família de receptores na superfície das células cerebrais, formada por receptores nicotínicos de acetilcolina, que podem mediar a dor, o humor, a memória, a atenção e outras funções cognitivas.
Os laboratórios Abbott, Targacept e AstraZeneca desenvolveram drogas que, em ensaios clínicos, atuam em receptores nicotínicos para distúrbios de memória, de défict de atenção - hiperatividade e dor. O Instituto Nacional de Abuso de Drogas está testando a própria vareniclina para o tratamento de dependência de cocaína e álcool. Estudos pré-clínicos estão analisando outros novos compostos que atuam sobre receptores nicotínicos para a doença de Parkinson, doença de Alzheimer, depressão, colite ulcerativa e inflamação, assim como atestando a ampla influência dessa família de receptores.
Na verdade, os efeitos dos receptores nicotínicos são tão amplos, que alguns mecanismos envolvidos não são completamente entendidos ainda. “É uma história que ainda está em evolução, e é muito complicada, assim como é lidar com uma droga como a vareniclina. Eu não estou surpresa que haja efeitos colaterais” diz Lorna Role, que estuda a biologia dos receptores nas Universidades de Columbia e de Stony Brook.
Esse tipo de receptor de acetilcolina, que também responde por nicotina, atua como “um controle de volume” de outros neurotransmissores, de acordo com Role. “Um pouco de nicotina aumenta a liberação do transmissor” ela explica. Foi demonstrado que ele aumenta a liberação de dopamina, glutamato, GABA, todos os principais neurotransmissores.
A ativação de um subtipo de receptor nicotínico conhecido como alfa4beta2 provoca a liberação de dopamina em uma parte do cérebro envolvida no reforço da recompensa, por exemplo, e aquele receptor é o alvo principal da vareniclina. Essa droga atua como um “agonista parcial” o que significa que a mesma se liga ao receptor, produzindo um moderado estímulo dirigido a adiar a remoção da nicotina.
Ao fazer isso, ela impede a nicotina de alcançar o receptor, evitando que o fumante obtenha a nicotina a partir de um cigarro.
Em estudos celulares, a vareniclina também atua como um potente agonista completo de outro subtipo de receptor denominado de alfa 7 que é associado com alguns efeitos cognitivos positivos da nicotina, tais como o aumento da capacidade de focar.
Fonte: Scientific American Magazine - 29 de agosto de 2008
Tradução: INCA/Divisão de Controle do Tabagismo
EUA - A dura estréia de um mimetizador da nicotina diminui a esperança de seu uso em larga escala
Como a gigante farmacêutica Pfizer comentou em maio, chegar primeiro tem suas recompensas, mas traz o risco da aventura em territórios não explorados. Na primavera passada a Administração da Aviação Federal dos EUA proibiu pilotos e controladores de tráfico aéreo de tomarem vareniclina, o medicamento para cessação de fumar mais popular da companhia, vendido nos EUA como Chantix. As 6,5 milhões de prescrições feitas desde 2006 resultaram em relatos amplamente divulgados sobre convulsões, psicose e depressão suicida. Em maio, o Instituto Prática de Medicação Segura (Institute for Safe Medication Practices), entidade sem fins lucrativos, documentou 988 desses “eventos adversos”, levando ao imediato banimento do seu uso na aviação.
A FDA (Food and Drug Administration dos EUA) agora adicionou uma forte advertência nas orientações do medicamento e a Pfizer está revisando as evidências que podem explicar os incidentes, que embora raros, são graves.
A Vareniclina não é apenas um novo instrumento na cessação do tabagismo. É o primeiro de uma inteira classe de medicamentos especificamente elaborados tendo como alvo a poderosa família de receptores na superfície das células cerebrais, formada por receptores nicotínicos de acetilcolina, que podem mediar a dor, o humor, a memória, a atenção e outras funções cognitivas.
Os laboratórios Abbott, Targacept e AstraZeneca desenvolveram drogas que, em ensaios clínicos, atuam em receptores nicotínicos para distúrbios de memória, de défict de atenção - hiperatividade e dor. O Instituto Nacional de Abuso de Drogas está testando a própria vareniclina para o tratamento de dependência de cocaína e álcool. Estudos pré-clínicos estão analisando outros novos compostos que atuam sobre receptores nicotínicos para a doença de Parkinson, doença de Alzheimer, depressão, colite ulcerativa e inflamação, assim como atestando a ampla influência dessa família de receptores.
Na verdade, os efeitos dos receptores nicotínicos são tão amplos, que alguns mecanismos envolvidos não são completamente entendidos ainda. “É uma história que ainda está em evolução, e é muito complicada, assim como é lidar com uma droga como a vareniclina. Eu não estou surpresa que haja efeitos colaterais” diz Lorna Role, que estuda a biologia dos receptores nas Universidades de Columbia e de Stony Brook.
Esse tipo de receptor de acetilcolina, que também responde por nicotina, atua como “um controle de volume” de outros neurotransmissores, de acordo com Role. “Um pouco de nicotina aumenta a liberação do transmissor” ela explica. Foi demonstrado que ele aumenta a liberação de dopamina, glutamato, GABA, todos os principais neurotransmissores.
A ativação de um subtipo de receptor nicotínico conhecido como alfa4beta2 provoca a liberação de dopamina em uma parte do cérebro envolvida no reforço da recompensa, por exemplo, e aquele receptor é o alvo principal da vareniclina. Essa droga atua como um “agonista parcial” o que significa que a mesma se liga ao receptor, produzindo um moderado estímulo dirigido a adiar a remoção da nicotina.
Ao fazer isso, ela impede a nicotina de alcançar o receptor, evitando que o fumante obtenha a nicotina a partir de um cigarro.
Em estudos celulares, a vareniclina também atua como um potente agonista completo de outro subtipo de receptor denominado de alfa 7 que é associado com alguns efeitos cognitivos positivos da nicotina, tais como o aumento da capacidade de focar.
Fonte: Scientific American Magazine - 29 de agosto de 2008
Tradução: INCA/Divisão de Controle do Tabagismo
Fonte : http://www.sciam.com/article.cfm?id=nicotine-replacement-drugs-bad-trip
Fonte : http://www.sciam.com/article.cfm?id=nicotine-replacement-drugs-bad-trip
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