
Com a entrada em vigor da nova legislação antifumo, desde o dia 7 de agosto o Estado de São Paulo deu um importante passo em defesa da saúde pública. Ao proibir que se fume em ambientes fechados de uso coletivo, a lei antifumo estabelece uma mudança de comportamento com reflexos diretos na saúde pública. A necessidade de se aprovar uma Lei dessa natureza resume-se numa simples palavra: desrespeito. E o desrespeito faz com que o indivíduo esqueça a diferença entre o que é certo e o que é errado.
A partir desse pensamento começamos a refletir a relação homem-cigarro-ética ambiental. Onde o homem é visto como sujeito de consumo, dominado pelo mercado que multiplica e diversifica a oferta e amplia, através da variação de preço, a possibilidade de compra; o cigarro é o fruto do prazer do homem tabagista, e a ética ambiental, uma conduta comportamental em relação ao meio ambiente, sem compromisso com o espaço urbano, utilizando esse espaço como depósito dos resíduos resultantes de seu prazer. A qualidade de vida e o meio ambiente se modificam devido essa ação do tabagista, criando uma nova estética ambiental.
As discussões sobre a relação homem e natureza, principalmente o contexto degradação ambiental, continua na pauta da ordem do dia. No entanto, dentro desse contexto não se discute o cigarro como agente agressor ao meio ambiente. O prazer do homem-tabagista em conflito com o meio ambiente.
Há várias formas de prazer que são procurados pelos homens, variando desde o prazer físico, intelectual até o emocional, dependendo de cada pessoa e do momento de sua vida. No entanto, a busca do prazer voltada ao uso do tabaco, mais propriamente o cigarro, continua crescendo.
Charles Reichet, em sua obra “Or The Follies of Man Kind”(1926), fisiologista e filósofo francês, propôs a mudança da classificação do homem, de “Homo Sapiens” para “Homo stultus”. Para justificar essa substituição, apontou, entre outros prazeres, o tabagismo como exemplo típico da estultícia do homem.
Essa estupidez, apontada por Charles Reichet, resume-se, com toda a certeza, na felicidade do tabagista ao ver propagandas exibindo fumantes em meio a carros velozes, iates, cavalos de raça, balões, aviões e até soltando baforadas, alegremente, acompanhado de uma mulher lindíssima e um copo de uísque. E essa felicidade é antiga. Nas décadas de 40, 50 e 60, nas telas dos cinemas, o cigarro dava masculinidade aos homens e charme às mulheres que fumavam. Era uma maravilha ver o casal fumando deliciosamente e tomando sua bebida predileta.
E esse prazer continua sendo procurado pelo rico, pelo pobre, por profissionais da saúde, políticos, filósofos, sociólogos, entre outros, que, enquanto pensam e escrevem, gozam o sabor e o aroma do cigarro, que circula entre os dedos.
As campanhas antitabagísticas, de uma forma geral alertam o tabagista para deixar de fumar, pois deixando o hábito de fumar a vida será mais longa, terá mais vitalidade, despesas médicas diminuídas, sentirá melhor o paladar dos alimentos. A medicina orienta que o fumo trás diversos tipos de câncer, enfisema pulmonar, endurecimento das artérias, derrame cerebral e tantos outros males. As mulheres são informadas que o cigarro pode trazer perigo na gravidez.
As religiões procuram as orientações bíblicas nas suas ações. O vício do cigarro, como qualquer outro vício não vem de Deus. Se não vêm de Deus, é pecado. “Tudo me é permitido, mas nem tudo convém, tudo me é permitido, mas eu não deixarei que nada me domine (I Corintios 6:12)”. Os que se dizem cristãos convictos, são orientados que é pecado prejudicar a saúde, pois é uma forma de suicídio lento. Peca não só o que transgride a lei moral de Deus (I João 8:4; Romanos 8:20; Êxodo 20: 3-17), mas também o que transgride as leis da saúde, pois estas também foram estabelecidas pelo mesmo Legislador e Mantenedor de todas as coisas. A igreja deve agir como um agente transformador do contexto histórico em que está inserida e aponta caminhos práticos para a atuação no contexto atual.
Portanto, a análise do tabagismo envolve aspectos de saúde, psicossociais, econômicos, até jurídicos e religiosos. E dentro dessa transdisciplinaridade, deve-se sim respeitar o prazer do fumante, porém, se nenhuma informação médica fez com que abandonasse o vício, requerer o correto hábito. Objetivo dos juízos éticos é orientar a prática.
Convivemos com escapamentos irregulares, sinfonia de buzinas, chaminés soltando fumaças, esgoto a céu aberto, que são encarados normalmente no dia a dia agitado e acaba sendo incorporado à paisagem da cidade. E dentro dessa paisagem, o cigarro, considerado tão “insignificante” impede o fumante em perceber que também é um predador da natureza. A indiferença é tanta que raramente os livros, inclusive os que pregam a Educação Ambiental, tratam do combate ao tabagismo como fonte poluidora. Vale lembrar que, segundo especialistas, de 3% a 6% da poluição tabagística são compostos de monóxido de carbono (CO). A fumaça do cigarro é de 20 a 60 mil ppm, o que equivale em média a 75% de CO expelido pelo escapamento de um veículo.
Porém, tudo começa com a agressão as famílias de agricultores que cultivam o fumo. Estudos sobre contaminação por agrotóxicos na fumicultura indicam que cerca de metade dos agricultores sofrem com a intoxicação, crônica ou aguda. Além disso, estufas de secagem da folha do tabaco queimam cerca de 50 mil metros cúbicos de árvores nativas ou reflorestadas, por safra, para cada mil estufas, e termina nas bitucas atiradas nas vias públicas ou arremessadas pelas janelas dos veículos. Esse simples ato de arremessar o final do cigarro com a brasa ainda acesa, é responsável por incêndios e pelo aumento do lixo urbano. Antes das bitucas, há também o inicio do ritual do tabagista. Começa na retirada de um plástico que lacra a embalagem e a retirada daquele selinho que lacra o maço, ou carteira, de cigarros, que normalmente é atirado para o alto. Envolvendo o maço encontra-se uma embalagem plástica, não biodegradável normalmente amassado e jogado junto com a embalagem de papel. Raramente são depositados em lixeiras. Ao se misturarem com o lixo urbano, o papel tem um período de três a seis meses para se decompor e o plástico um período de cem anos.
Enfim, é necessário refletir sobre os direitos dos cidadãos à vida e ao meio ambiente equilibrado. E o cidadão deve investigar o sentido que imprime à sua conduta. Deve estar ciente que, sem a ética ambiental, não se conseguirá viver e passará a intervir na sobrevivência dos seres vivos. Portanto, deve ser responsável pelos seus atos, condutas e ação. Já aprendemos com a Carta do Chefe Seattle (1854) que tudo o que acontecer a terra, acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos.
André de Siqueira – especialização em Filosofia – Educação, Política e Sociedade.