
1. De onde surgiu a idéia de pesquisar sobre o fumante e o cigarro? Como foi o desenvolvimento do seu estudo?
Apesar de trabalhar com dependência química desde 1990, quando comecei a atender tabagistas fiquei muito surpresa com a forma como eles se referiam ao cigarro. É comum ele ser chamado de amigo, parceiro, companheiro e até de namorado ou marido por algumas mulheres. Além disso, observava que quando retiravam o cigarro, vários fumantes sentiam uma tristeza muito profunda e a comparavam à perda de um ente querido.
Alguns também diziam se sentir amputados sem o cigarro, como se lhes faltassem um pedaço. Essas observações me deixavam perplexa e me pareciam dignas de um estudo mais aprofundado. Quando fiz Especialização em Psicologia Junguiana resolvi abordar esse assunto e estudar o que observava diariamente nos atendimentos.
Fiz uma monografia de conclusão de curso cujo objetivo foi pesquisar o que o cigarro simboliza para o fumante e que lugar ocupa em sua vida. Trata-se de uma pesquisa qualitativa. Foram realizadas entrevistas individuais semi-dirigidas com 5 pacientes em tratamento no Cratod e as respostas foram analisadas à luz da psicologia analítica.
2. Desde os primeiros contatos do homem com o ato de fumar, houve mudanças no significado psicológico do cigarro/fumo?
O tabaco é uma planta originária da América. Era utilizado pelos índios em rituais religiosos, de purificação ou de cura. Normalmente seu uso era restrito a algumas situações. Quando os europeus descobriram a América, e com ela o tabaco, experimentaram suas folhas e levaram a planta para a Europa. A princípio era considerada uma planta medicinal utilizada em chás, pomadas, cataplasmas. Também era fumada com bastante freqüência por todas as classes sociais. O tabaco foi utilizado de todas as formas: fumado, mascado, aspirado. O cigarro foi o último a entrar em cena.
Antes do cigarro industrializado, o fumante comprava o fumo e o enrolava. É importante ressaltar que ao longo dos anos, a indústria, para tornar o tabaco mais palatável e para aumentar a absorção da nicotina pelo organismo, acabou adicionando substancias ao cigarro. Hoje são 4600 substâncias aproximadamente.Além disso, através do cinema e da propaganda, o cigarro foi associado a certos valores e atitudes.
Esse foi associado à beleza, charme, mistério, sensualidade e emancipação na mulher, e à coragem, contestação, virilidade e rebeldia no homem. Também o cigarro foi associado à liberdade e aos desafios. É óbvio que o cigarro de hoje não tem nada a ver com os rolos de folhas que os índios fumavam. Vemos que houve modificações, ao longo da história, do próprio tabaco enquanto substância, das circunstâncias em que era utilizado e, portanto, podemos supor que houve mudança do seu significado psicológico. É completamente diferente fumar durante um ritual, enrolar seu próprio cigarro após as refeições e fumar compulsivamente maços comprados em pacotes fechados. Teríamos que nos deter com mais calma em cada situação para avaliar o significado do cigarro em cada uma delas.
3. Após sua pesquisa, como você passou a analisar a relação que existe entre o fumante e o seu cigarro?
Dois entrevistados experimentaram o cigarro na infância e três na adolescência. A experimentação na adolescência é a mais frequente. Nessa fase da vida é comum sentir-se inseguro, ter medo, estar ansioso, querer pertencer a um grupo, querer imitar os amigos, sentir-se feio. Apesar do fumante, na maioria das vezes, sentir-se mal na primeira tentativa, insiste em “aprender” a fumar, por achar que valerá a pena, ou seja, haverá um ganho com esse comportamento. Através dele, poderá integrar-se ao grupo de amigos, parecer mais velho, ter status frente aos pares.
Muitos fumantes afirmam que insistiram por achar que fumar era “bonito”. Essa expectativa muito positiva quanto ao cigarro foi criada principalmente pela propaganda, cinema e mídia durante anos. Graças a suas propriedades psicoativas, o cigarro é capaz de provocar sensação prazerosa, estimulante e ansiolítica, e desta forma aplacar o mal estar característico deste período, sem dar chance ao indivíduo de enfrentar essas situações com seus próprios recursos, aprender e se desenvolver com elas.
O cigarro parece ser vivido, não conscientemente, como um grande ajudante para lidar com os sentimentos desagradáveis próprios da adolescência, dando sensação de bem-estar. Ele passa a fazer parte da vida do fumante e torna-se um meio de enfrentá-la.
Podemos dizer que, no fumante adolescente, sua personalidade estrutura-se com o auxílio do cigarro. Ele foi útil num momento de fragilidade/ vulnerabilidade, porém com o tempo estabeleceu-se a dependência física e psicológica.
O fumante ficou preso à armadilha. Passa mal quando tenta largar o cigarro. Ele entende que só pode enfrentar a vida com o cigarro ao seu lado, não acreditando que seja capaz sem ele.
O fato de chamar o cigarro de “amigo”, “companheiro”, “parceiro”, mostra como esse tem um papel importante em sua vida. Uma fumante dizia que quando queria confidenciar coisas para uma pessoa e não tinha, ela fumava “Talvez seja esse o papel, de companheiro”. O cigarro acaba sendo investido de atributos humanos para aplacar a solidão, os sentimentos desagradáveis, as dificuldades. Podemos entender essa personificação como resultado da projeção de aspectos positivos e negativos do fumante sobre o cigarro. Qualidades não desenvolvidas e conscientizadas passam a ser depositadas nele.
Muitas vezes, o fumante acredita que só pode escrever se fumar, criar se fumar, ter uma atividade mental se fumar, relacionar-se com os outros se fumar, sentir-se mais seguro se fumar... não percebendo que quem faz tudo isso é ele mesmo e não o cigarro!
Esse pode também servir de “bode expiatório” para qualquer situação difícil ou dificuldade pessoal; neste caso é depositário dos aspectos negativos não incorporados. O fumante pode acreditar, por exemplo, que se parar de fumar será melhor aceito no seu meio de trabalho, não será mais discriminado, que o cigarro é o responsável por todos os seus males. Neste caso explica todos os seus fracassos. Se o cigarro é o responsável, o indivíduo não precisa se deparar com suas dificuldades!
Os fumantes entrevistados na monografia descrevem sua relação com o cigarro de proximidade, cumplicidade e prazer. Sentem-se reconfortado nos momentos de aflição.
Um deles disse: “O cigarro traz aquele alívio imediato”. Outro afirmou “Ele (o cigarro) me acompanha na alegria, na tristeza, na riqueza, na pobreza”, trazendo a idéia de um casamento perfeito, uma comunhão, uma união onde sente-se compreendido, aceito, apoiado.
Nessas horas é descrito como mais que amigo, ele não julga, não critica, não reclama, aceita. Parece haver uma cumplicidade entre o fumante e o cigarro difícil de ocorrer nas relações entre humanos. Há um encontro perfeito. Faz pensar numa relação Eu-Outro paradisíaca, onde não há frustração. Parece falar de um relacionamento que vai além dos relacionamentos humanos que, se por um lado nos fazem crescer e nos fazem nos sentir bem, também nos confrontam com nossas próprias dificuldades e nos frustram . Fala de um encontro que tem somente o lado prazeroso, positivo, de bem estar e completude.
4. Na sua visão, como o fumante enxerga o cigarro e por que é tão difícil largá-lo?
Acredito que o fumante enxergue o cigarro como um complemento de si mesmo. Por tudo o que foi dito na resposta anterior, o fumante sente-se completo com o cigarro. Ele o descreve como um alívio, fumar é descrito como um momento de plenitude, de extremo prazer.
Vários pacientes dizem que diante de uma situação difícil fumam para se sentir melhor, “esquecer”, “o cigarro dava prazer e relaxamento...Quando ficava com alguma preocupação, fumava e fugia um pouco da situação...você tá no sufoco...parava, sentava... Fumava... Não pensava mais em nada, esquecia um pouco aquilo...daqui a pouco tinha que voltar, mas o cigarro dava essa folga”, “ Era como se fosse um alívio, uma companhia, a carência, 99% do meu dia”.
O fumante parece entrar numa outra dimensão e fugir do momento presente. Também é vivido como um reconforto nos momentos de solidão e dor. Nessas horas o fumante se sente aconchegado, aceito, não criticado, como se pudesse receber um amor incondicional que todo ser humano gostaria de ser alvo: “ me apeguei ao cigarro”, “Faz companhia no ócio”, “ O fato de se sentir sozinho... parece que ele preenche”. O fumante vê no cigarro aquilo que gostaria de ter ( amigo, companheiro confiável, confidente...) ou ser ( inteligente, forte, bonito, corajoso...) para se sentir completo. Também parece satisfazer a necessidade arquetípica do ser humano de se sentir amado e aceito como é.
É tão difícil largar o cigarro porque quando esse é retirado, além de ter que agüentar a síndrome de abstinência causada pela dependência física, as dificuldades que foram encobertas pelo seu uso aparecem com toda a força . Por exemplo, na pesquisa um fumante iniciou o uso com 7 anos. Dizia sentir-se mais “adulto, mais homem” para poder ficar no grupo de adolescentes da rua. Quando parou de fumar esse menino negligenciado e amedrontado ressurgiu com toda força. Não tinha passado pela experiência de enfrentar as fases do crescimento.
Um autor Junguiano chamado Zoya afirma que na utilização das drogas dá-se um rito de iniciação “de cabeça para baixo”. Todo rito tem a morte iniciática seguida de renascimento, ou seja, a morte inicíatica pode ser entendida como renúncia à identidade anterior e renascimento iniciático como posse da nova identidade frente ao grupo. Morrer enquanto criança para se tornar adolescente, depois de passar por uma prova, por exemplo. Esse autor diz que no caso da droga, e acredito que também no caso do cigarro, ocorre o renascimento como experiência inicial e morte como experiência final. A ordem do processo é invertida. A morte iniciática não é vivida como experiência inicial, ao contrário, o que ocorre após o uso da droga é uma sensação de relaxamento, prazer e euforia , comparado a um falso renascimento. Com o tempo, a experiência com a droga pode concluir-se com a morte. Parece ter acontecido essa “iniciação de cabeça para baixo” com essa pessoa que “pulou” fases de seu desenvolvimento, sentindo -se homem aos 7 anos. Como construiu sua identidade de adulto?
Outro paciente, extremamente ansioso, que usava o cigarro como calmante, teve que aprender a lidar com sua ansiedade sem cigarro. Ou seja, o que foi deixado de lado, amenizado graças aos poderes psico-ativos da nicotina, aparece com força. É isso que assusta tanto o fumante, ele percebe que terá trabalho pela frente, terá que aprender a se conhecer e enfrentar seus problemas sem a ajuda da nicotina, droga estimulante, ansiolítica e grande geradora de prazer. Isso assusta. O abandono do cigarro se torna algo ameaçador porque o fumante se vê frente a tudo aquilo que não pôde encarar durante anos. Teme não suportar. Fica ambivalente.
A decisão de não fumar é difícil de ser mantida porque exige que se tome consciência dos significados psicológicos que o cigarro carrega e das motivações inconscientes que mantiveram o hábito. O corpo e o cérebro precisam aprender a funcionar sem nicotina e o indivíduo precisa aprender a se conhecer sem ela.
5. Quais são as considerações finais que o seu estudo destacou?
É interessante observar que o fato de largar o cigarro provoca mudanças significativas na vida do fumante. Ele acha que vem procurar tratamento apenas para parar de fumar. Porém, quando retira o cigarro, percebe que o equilíbrio de sua vida está alterado.
Se por um lado é desagradável sair de sua zona de conforto, por outro lado possibilita muitas mudanças. É quase um efeito dominó. Como num caleidoscópio, quando é retirada uma peça, o todo precisa ser reorganizado. O que observamos é que há uma ampliação das atividades, das diversões e mudanças na forma de agir.
Uma das mudanças mais observadas é o fumante começar a reagir a certas situações que aceitava passivamente: fumava em vez de reclamar. Uma paciente expressou que o cigarro a “ajudava a engolir sapos”. Essa atitude de expressar o descontentamento causa surpresa nos pacientes que não se reconhecem, costumavam engolir tudo com a fumaça do cigarro.
Podemos destacar também que o conhecimento racional nem sempre é suficiente para fazer o fumante largar o cigarro. Há um prazer e uma satisfação que ultrapassam qualquer razão ou bom senso. Motivações inconscientes têm mais peso.
O tratamento do tabagismo pode ajudar o fumante a tomar consciência do que está ocorrendo com ele, re-haver o que foi projetado no cigarro, apropriar-se do que é dele novamente, resgatar suas forças para retomar a vida nas próprias mãos. A “fusão” com o cigarro que faz com que se sinta amputado sem ele, deve ser substituída pela integração do que foi projetado nele.
Assim como Popeye não tira o cachimbo da boca nem para falar, nem para comer o espinafre, o fumante talvez perceba o cigarro fazendo parte de si. Por isso , tirar o cigarro é uma amputação. Ficar sem fumar é perder sua identidade, não saber mais quem é. Propor-se a parar de fumar, significa propor-se a rever essa identidade. Ele não se conhece sem cigarro.
Esse cigarro precisa ser esvaziado de seus conteúdos simbólicos e o fumante precisa retomá-los para si, para que possa se sentir inteiro novamente.
Para que tenham êxito em largar o cigarro, faz-se necessário retomar as dificuldades, as dores, o sofrimento, amenizados pelo uso deste . Neste trabalho é possível observar que a retirada do cigarro faz os problemas e as dificuldades pessoais virem a tona com muita força e o paciente, por vezes, sente-se completamente sem referências. A “fissura” provocada pela falta do cigarro deixa emergir o que estava nas camadas mais profundas, como a lava de um vulcão. O tratamento tem a função de acolher e ajudar o dependente a encarar o que está sentindo e vivenciando , desta vez sem o cigarro.
É função do grupo terapêutico ajudar os pacientes a se fortalecerem para enfrentar o que permaneceu inconsciente. É necessário que fortaleçam seu ego, aprendam a confiar nas relações e em si mesmos. O grupo precisa, inicialmente, ser continente, acolher, amparar, alimentar, proteger, dar segurança e afeto, para que possam adquirir confiança em si e no outro e conseguir um equilíbrio psíquico adequado para permitir que o processo de individuação continue.
Alguns pacientes parecem re-apossarem-se de si mesmos com mais rapidez, outros com extrema dificuldade, o que nos faz pensar na frase de Clarice Lispector:“ Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”. Sem chamar o cigarro de defeito, o que seria uma forma moralista de tratar o problema, podemos pensar nesta frase como uma imagem para mostrar que para muitos fumantes o cigarro “ sustenta o edifício inteiro” ou seja, ele serve de alicerce para lidar com as dificuldades e impedir de entrar em contato com os conflitos inconscientes.
Talvez por isso, para alguns fumantes a retirada seja mais difícil e lenta. O edifício pode desmoronar.
Por fim, eu diria que assim como não há uma estrutura de personalidade típica do dependente de drogas, também não há uma estrutura típica do fumante. Não são todos os fumantes que chamam o cigarro de amigo, nem todos vão utilizar o cigarro da mesma forma.
Reflexões e outras pesquisas são necessárias para que se possa conhecer melhor esta parcela da população e para que as presentes observações possam ser ampliadas e complementadas.
Formada na USP em Psicologia, Ivone Maria Charran trabalha com Dependência Química desde 1990, no Centro de Referencia de Álcool, Tabaco e outras Drogas (Cratod), órgão ligado à Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. A especialista também realiza atendimentos a tabagistas desde 2002. Possui especialização em dependência química pela Unifesp e realizou um curso de especialização em Abordagem Junguiana: Leitura da realidade e Metodologia de Trabalho na PUC-SP. Neste último, a psicóloga produziu um interessante trabalho sobre o significado psicológico do cigarro.